Por Brunno Lemos – Rádio Domm
O charme de Notting Hill, um dos bairros mais icônicos de Londres, sempre esteve nas suas ruas de casas coloridas, portas vibrantes e fachadas que parecem ter saído de um cartão-postal. Mas, nos últimos meses, uma tendência inesperada tem tomado conta da região: moradores estão pintando suas casas de preto — e o motivo passa longe de moda ou estética.
O novo visual sombrio é, na verdade, um recado: “a rua não é ponto turístico, é nosso lar”.
Instagram, turismo de massa e incômodo diário
O aumento explosivo do turismo pós-pandemia e o impacto das redes sociais transformaram ruas como Lancaster Road em verdadeiros cenários disputados por influenciadores digitais. As fachadas coloridas, antes sinônimo de identidade local, tornaram-se pano de fundo para ensaios fotográficos diários, vídeos, sessões de conteúdo e até pequenas produções independentes.
Para os moradores, isso deixou de ser apenas uma curiosidade e virou dor de cabeça:
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gente subindo em escadas e corrimões particulares para conseguir “a foto perfeita”;
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filas de turistas nas portas das casas;
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lixo deixado na frente das residências;
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dificuldade para entrar e sair de casa sem serem filmados;
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falta de privacidade dentro das próprias janelas.
“É como morar dentro de uma atração turística, mas sem os benefícios e com todos os problemas”, afirmou um residente à imprensa britânica.
O preto como protesto silencioso
Diante do cenário, alguns moradores decidiram agir por conta própria:
reformaram e repintaram suas fachadas em tons de preto, carvão ou cinza-escuro, apagando o apelo visual que tornava as casas material para Instagram.
A medida funciona como um antídoto para o turismo fotografável — e, segundo eles, um pedido de respeito.
Em uma carta distribuída aos vizinhos, um grupo de moradores explicou o motivo da mudança:
“As cores chamativas da nossa rua se tornaram um ímã para fotos nas redes sociais. Consequentemente, enfrentamos um fluxo diário de visitantes que prejudica o bem-estar dos residentes.”
Para muitos, a solução não é estética — é estratégica. Quanto menos “instagramável” a fachada, menor o fluxo de curiosos parando para registros.
Efeito colateral: a identidade do bairro pode mudar
Apesar de ser uma estratégia compreensível para muitos, a decisão também levanta debates sobre o impacto estético e patrimonial no bairro.
Notting Hill ficou mundialmente famoso justamente pelo seu visual vibrante, que virou cartão-postal, cenário de filmes e símbolo de Londres. Com cada vez mais casas adotando o preto, especialistas alertam para uma possível mudança no caráter visual da região.
Urbanistas também lembram que partes do bairro são áreas de conservação, onde reformas externas exigem autorização municipal — algo que pode colocar moradores e autoridades em posições opostas.
Vai resolver?
Há quem duvide. Alguns especialistas acreditam que o fenômeno das redes sociais é tão grande que nem uma fachada preta impediria completamente o turismo: “É possível que pessoas comecem a vir fotografar justamente as casas pretas”, brincou um colunista local.
Ainda assim, os moradores apostam na simplicidade do gesto para tentar recuperar um pouco de privacidade e tranquilidade.
Se vai funcionar, só o tempo — e o algoritmo — dirão.
